Vigésimo quinto andar. Já era madrugada e uma brisa
suave acariciava os cabelos castanhos cacheados do rapaz de vinte e poucos anos.
Reflexivo, olhava fixamente o horizonte. Pensava que talvez não valesse a pena
seguir em frente. Em pé, postava-se perigosamente sobre o muro, na parte
frontal da sacada. Olhou o precipício abaixo. Um movimento mínimo e estaria
rumo ao desconhecido. A nudez ressaltava a beleza física e a atitude revelava
uma dor profunda, vinda da alma. O horário e o local não indicavam a presença
de testemunhas no entorno. Um simples impulso e tudo passaria. A dor cessaria. Lá
embaixo, ao longe, os faróis dos raros veículos pareciam luzes distantes que
coloriam e davam brilho à madrugada escura.
<<João..., Sandra..., agora tudo era tão
confuso. Tudo sempre fora tão claro... O que mudou?>> – O rapaz pensava. <<Eu
tinha muito a fazer, mas talvez, talvez eu não esteja interessado em viver para
tal. Acho melhor parar por aqui. Já vivi demais. Tantas experiências. Amigos...
A família...mãe..., foi bom. Mas é hora de partir.>> - A mente do rapaz
estava um caos de pensamentos desencontrados.
A campainha tocou e parecia distante, distante...
Tocou...
Insistiu, tocou e tocou.
Seguiu-se um silêncio que foi rompido pelo ruído da
chave girando a tranca da porta.
- Carlo? O que cê tá fazendo aí, pelado? Desce daí!
Isso tudo é calor, porra? – Logo que entrou, João percebeu a gravidade da cena,
mas agilmente tentou disfarçar com um gracejo. Carlo permaneceu em silêncio,
olhando as estrelas ausentes. João sentiu um calafrio. <<Tenho que pensar
rápido!>> - Pensou João assustado.
- Ei, eu preciso de você, cara! – João falou com a
voz trêmula, como quem estava sentindo falta de ar e dor. Era a dor da morte.
Os próximos segundos pareceram séculos de expectativa quanto ao próximo
movimento do amigo. João sentia-se petrificado, mas sabia que tinha que fazer
algo para evitar uma tragédia.
- Você não precisa de mim... nunca precisou. – Disse Carlo
ao mesmo tempo que girou a cabeça um pouco para o lado, mas ainda mantendo o
olhar no horizonte. Havia um ar de frustração por algum motivo que até então o
amigo não percebera.
- Cara, você me ajudou a vida toda. Você é o único amigo
que tive nas horas que mais precisei! E agora? Com essa loucura toda... Você
faz parte disso e eu não vou saber resolver sozinho. Seja terrorismo ou sei lá
o que... – João congelou. Ouviu-se um grito:
- Não!!!! – Com os olhos arregalados, João assustou-se
com o salto mortal que Carlo dera. O susto o impediu de perceber que o salto
havia sido para trás, na direção da parte interna da sacada e não do
precipício. Calado, Carlo caminhou vagarosamente, passou próximo a João, que o
acompanhava com o olhar, dirigiu-se ao corredor e entrou no banheiro social,
deixando a porta aberta.
João, ainda imóvel com o susto, permaneceu parado, pasmo,
olhando para a entrada do corredor, tentando entender o que presenciara há
pouco. Ouviu o som do chuveiro. Decidido, foi em direção ao banheiro. Ao chegar
à porta, novamente ficou parado, ombros arqueados, pareceu ficar sem forças ao
ver o amigo sentado no chão do box de banho, pernas cruzadas, embaixo do
chuveiro e com os olhos fechados, o rosto voltado para cima, sentindo o
conforto da água morna lhe acariciar a alma.
João permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando o
amigo, mas em seguida entrou. Em movimentos suaves, sentou-se no chão, próximo
ao box de vidro, encostou-se no armário da pia, juntou e abraçou as pernas, olhou
para o amigo e disse:
- Estou aqui.
***
Esse conto é o início de uma série que envolve três amigos de juventude: João, Sandra e Carlo. Uma desventura vivida por Sandra a leva a conhecer Carlo e, em seguida, João. Assim os três irão viver diversas histórias em uma trama que envolve encontros, desencontros, erotismo e suspense.
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