segunda-feira, 31 de julho de 2017

Conto em série: Corcovado: o precipício

Vigésimo quinto andar. Já era madrugada e uma brisa suave acariciava os cabelos castanhos cacheados do rapaz de vinte e poucos anos. Reflexivo, olhava fixamente o horizonte. Pensava que talvez não valesse a pena seguir em frente. Em pé, postava-se perigosamente sobre o muro, na parte frontal da sacada. Olhou o precipício abaixo. Um movimento mínimo e estaria rumo ao desconhecido. A nudez ressaltava a beleza física e a atitude revelava uma dor profunda, vinda da alma. O horário e o local não indicavam a presença de testemunhas no entorno. Um simples impulso e tudo passaria. A dor cessaria. Lá embaixo, ao longe, os faróis dos raros veículos pareciam luzes distantes que coloriam e davam brilho à madrugada escura.
<<João..., Sandra..., agora tudo era tão confuso. Tudo sempre fora tão claro... O que mudou?>> – O rapaz pensava. <<Eu tinha muito a fazer, mas talvez, talvez eu não esteja interessado em viver para tal. Acho melhor parar por aqui. Já vivi demais. Tantas experiências. Amigos... A família...mãe..., foi bom. Mas é hora de partir.>> - A mente do rapaz estava um caos de pensamentos desencontrados.
A campainha tocou e parecia distante, distante...
Tocou...
Insistiu, tocou e tocou.
Seguiu-se um silêncio que foi rompido pelo ruído da chave girando a tranca da porta.
- Carlo? O que cê tá fazendo aí, pelado? Desce daí! Isso tudo é calor, porra? – Logo que entrou, João percebeu a gravidade da cena, mas agilmente tentou disfarçar com um gracejo. Carlo permaneceu em silêncio, olhando as estrelas ausentes. João sentiu um calafrio. <<Tenho que pensar rápido!>> - Pensou João assustado.
- Ei, eu preciso de você, cara! – João falou com a voz trêmula, como quem estava sentindo falta de ar e dor. Era a dor da morte. Os próximos segundos pareceram séculos de expectativa quanto ao próximo movimento do amigo. João sentia-se petrificado, mas sabia que tinha que fazer algo para evitar uma tragédia.
- Você não precisa de mim... nunca precisou. – Disse Carlo ao mesmo tempo que girou a cabeça um pouco para o lado, mas ainda mantendo o olhar no horizonte. Havia um ar de frustração por algum motivo que até então o amigo não percebera.
- Cara, você me ajudou a vida toda. Você é o único amigo que tive nas horas que mais precisei! E agora? Com essa loucura toda... Você faz parte disso e eu não vou saber resolver sozinho. Seja terrorismo ou sei lá o que... – João congelou. Ouviu-se um grito:
- Não!!!! – Com os olhos arregalados, João assustou-se com o salto mortal que Carlo dera. O susto o impediu de perceber que o salto havia sido para trás, na direção da parte interna da sacada e não do precipício. Calado, Carlo caminhou vagarosamente, passou próximo a João, que o acompanhava com o olhar, dirigiu-se ao corredor e entrou no banheiro social, deixando a porta aberta.
João, ainda imóvel com o susto, permaneceu parado, pasmo, olhando para a entrada do corredor, tentando entender o que presenciara há pouco. Ouviu o som do chuveiro. Decidido, foi em direção ao banheiro. Ao chegar à porta, novamente ficou parado, ombros arqueados, pareceu ficar sem forças ao ver o amigo sentado no chão do box de banho, pernas cruzadas, embaixo do chuveiro e com os olhos fechados, o rosto voltado para cima, sentindo o conforto da água morna lhe acariciar a alma.
João permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando o amigo, mas em seguida entrou. Em movimentos suaves, sentou-se no chão, próximo ao box de vidro, encostou-se no armário da pia, juntou e abraçou as pernas, olhou para o amigo e disse:
- Estou aqui.  
***

Um comentário:

  1. Esse conto é o início de uma série que envolve três amigos de juventude: João, Sandra e Carlo. Uma desventura vivida por Sandra a leva a conhecer Carlo e, em seguida, João. Assim os três irão viver diversas histórias em uma trama que envolve encontros, desencontros, erotismo e suspense.

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