domingo, 13 de agosto de 2017

O abandono de um pai

Hoje estou sozinho, como sempre.
Eu gostaria que eles estivessem aqui,
ao menos hoje.
A solidão me abraça.
É uma sensação confusa essa de estar só.
Em que ponto da vida fiquei pra trás?
Um dia eu era esse cara
que não abraçava os filhos.
Defendia uma teoria conveniente
de que o para-casa era problema da escola.
O tempo era curto demais
para ser usado com as crianças.
Eram bons garotos, inteligentes,
obedientes e cheios de vida,
mas esse era um pai muito ocupado.
O pouco tempo que dedicava aos filhos
era oportunidade apenas para disciplinar.
A língua nem sempre é veneno fatal,
mas, usada sempre em pequenas doses,
é eficiente para destruir corações.
Então, era uma vez: os bons garotos
que se tornaram homens e mulheres de bem.
E esse cara poderia estar orgulhoso
dos filhos que criou e formou.
Mas eles não eram mais os seus garotos.
Os desse cara eram aqueles rostinhos tristes
e esquecidos deixados para trás.
Eternizados no esquecimento.
Mortos.
Assim, olho para o vazio.
Abraço a solidão.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Conto em série: Corcovado: o precipício

Vigésimo quinto andar. Já era madrugada e uma brisa suave acariciava os cabelos castanhos cacheados do rapaz de vinte e poucos anos. Reflexivo, olhava fixamente o horizonte. Pensava que talvez não valesse a pena seguir em frente. Em pé, postava-se perigosamente sobre o muro, na parte frontal da sacada. Olhou o precipício abaixo. Um movimento mínimo e estaria rumo ao desconhecido. A nudez ressaltava a beleza física e a atitude revelava uma dor profunda, vinda da alma. O horário e o local não indicavam a presença de testemunhas no entorno. Um simples impulso e tudo passaria. A dor cessaria. Lá embaixo, ao longe, os faróis dos raros veículos pareciam luzes distantes que coloriam e davam brilho à madrugada escura.
<<João..., Sandra..., agora tudo era tão confuso. Tudo sempre fora tão claro... O que mudou?>> – O rapaz pensava. <<Eu tinha muito a fazer, mas talvez, talvez eu não esteja interessado em viver para tal. Acho melhor parar por aqui. Já vivi demais. Tantas experiências. Amigos... A família...mãe..., foi bom. Mas é hora de partir.>> - A mente do rapaz estava um caos de pensamentos desencontrados.
A campainha tocou e parecia distante, distante...
Tocou...
Insistiu, tocou e tocou.
Seguiu-se um silêncio que foi rompido pelo ruído da chave girando a tranca da porta.
- Carlo? O que cê tá fazendo aí, pelado? Desce daí! Isso tudo é calor, porra? – Logo que entrou, João percebeu a gravidade da cena, mas agilmente tentou disfarçar com um gracejo. Carlo permaneceu em silêncio, olhando as estrelas ausentes. João sentiu um calafrio. <<Tenho que pensar rápido!>> - Pensou João assustado.
- Ei, eu preciso de você, cara! – João falou com a voz trêmula, como quem estava sentindo falta de ar e dor. Era a dor da morte. Os próximos segundos pareceram séculos de expectativa quanto ao próximo movimento do amigo. João sentia-se petrificado, mas sabia que tinha que fazer algo para evitar uma tragédia.
- Você não precisa de mim... nunca precisou. – Disse Carlo ao mesmo tempo que girou a cabeça um pouco para o lado, mas ainda mantendo o olhar no horizonte. Havia um ar de frustração por algum motivo que até então o amigo não percebera.
- Cara, você me ajudou a vida toda. Você é o único amigo que tive nas horas que mais precisei! E agora? Com essa loucura toda... Você faz parte disso e eu não vou saber resolver sozinho. Seja terrorismo ou sei lá o que... – João congelou. Ouviu-se um grito:
- Não!!!! – Com os olhos arregalados, João assustou-se com o salto mortal que Carlo dera. O susto o impediu de perceber que o salto havia sido para trás, na direção da parte interna da sacada e não do precipício. Calado, Carlo caminhou vagarosamente, passou próximo a João, que o acompanhava com o olhar, dirigiu-se ao corredor e entrou no banheiro social, deixando a porta aberta.
João, ainda imóvel com o susto, permaneceu parado, pasmo, olhando para a entrada do corredor, tentando entender o que presenciara há pouco. Ouviu o som do chuveiro. Decidido, foi em direção ao banheiro. Ao chegar à porta, novamente ficou parado, ombros arqueados, pareceu ficar sem forças ao ver o amigo sentado no chão do box de banho, pernas cruzadas, embaixo do chuveiro e com os olhos fechados, o rosto voltado para cima, sentindo o conforto da água morna lhe acariciar a alma.
João permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando o amigo, mas em seguida entrou. Em movimentos suaves, sentou-se no chão, próximo ao box de vidro, encostou-se no armário da pia, juntou e abraçou as pernas, olhou para o amigo e disse:
- Estou aqui.  
***